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Do celeste ao extraterrestre

Blog PFC Por Vitor Pimenta
Do celeste ao extraterrestre

"Do Celeste ao Extraterrestre: A Reinterpretação Moderna dos Anjos nas Narrativas de Crowley e nas Escrituras"

          A evolução do termo “alienígena” na cultura contemporânea pode ser lida como um processo semântico e simbólico destinado a deslocar, e eventualmente ocultar, realidades espirituais que em outras eras foram reconhecidas como manifestações angelicais ou demoníacas. Em 1918, Aleister Crowley conduziu o ritual conhecido como Amalantrah Working, momento em que alegou ter contactado uma entidade denominada Lam. Um retrato dessa entidade — exibido como frontispício em sua edição do The Voice of the Silence (1919) — apresenta feições cranianas alongadas e olhos ampliados, evocando imediatamente a iconografia moderna dos “Greys”. Porém, Crowley interpretou Lam não como um ser extraterrestre, mas como uma inteligência interdimensional de natureza espiritual ou demoníaca¹².

[caption id="attachment_2806" align="aligncenter" width="300"] Aliens x Demônios[/caption]

          A iconografia e o ritual de invocação de Lam ecoam narrativas bíblicas clássicas nas quais anjos tomam forma humana para interagir com os mortais. Em Gênesis 18:1–2, três figuras humanas — identificadas como emissários divinos — aparecem diante de Abraão²¹. Em Gênesis 32:24–30, Jacó confronta um ser que o profeta posterior Oséias classifica como anjo³. No livro de Tobias (5:4, LXX), Rafael caminha ao lado de Tobias sob o disfarce humano de Azarias⁴. A estratégia simbólica culmina em Êxodo 14:19, momento em que o anjo de Deus se desloca da dianteira para a retaguarda do acampamento israelense, operando uma proteção estratégica logo antes da divisão do Mar Vermelho⁵.

          No século XX, possivelmente incentivado pelo clima de desespero na Primeira Guerra Mundial, surgiu o relato dos “Anjos de Mons” (1914). Soldados britânicos afirmaram ter visto figuras luminosas — arcanjos ou santos montados em cavalos reluzentes — que teriam protegido as tropas durante a retirada. Essas visões se tornaram lendárias coadjuvantes do imaginário da guerra, mas investigações posteriores descartaram seu caráter testemunhal direto, apontando-as como derivadas do conto fictício The Bowmen de Arthur Machen (1915), amplamente difundido por mídia e folclore patriótico⁶⁻⁷.

        Ao confrontar o relato ocultista de Crowley, os testemunhos bíblicos e o enredo lendário da Primeira Guerra Mundial, identifica-se um padrão contínuo: inteligências não-humanas interferindo em eventos humanos, adaptando sua forma à moldura interpretativa de cada época. Na antiguidade eram chamados de anjos; no ocultismo, inteligências interdimensionais; e hoje, sobretudo, de alienígenas. Essa transformação linguística reflete uma migração da esfera do sagrado para a da especulação tecnológica, deslocando o desconhecido do campo teológico para a seara científica-ufológica. A hipótese de que “alienígena” seja apenas o nome contemporâneo para antigas presenças espirituais — angelicais ou demoníacas — ganha substância histórico-textual e simbólica, exigindo do leitor uma reflexão crítica sobre o papel da linguagem na modelagem dos paradigmas dominantes.

[caption id="attachment_2808" align="aligncenter" width="259"] Ló e os Anjos[/caption]   [caption id="attachment_2809" align="aligncenter" width="206"] Abrãão com Deus[/caption]

Os “Anjos de Mons”: Relatos e Contexto Histórico

Durante a Primeira Guerra Mundial, mais precisamente em agosto de 1914, na Batalha de Mons, surgiram relatos impressionantes vindos diretamente de soldados britânicos. Muitos afirmaram ter visto figuras angelicais ou cavaleiros sobrenaturais intervindo em seu favor contra as forças alemãs. Esses testemunhos, documentados por jornais, cartas e investigações posteriores, permanecem um dos episódios mais intrigantes da história militar moderna.

Relatos de Testemunhas Oculares

1. Lance-Corporal não identificado – Conforme registrado pelo vigário em 1915:

“I could see quite clearly in mid-air a strange light and I could distinctly see three shapes, the one in the centre having what looked like outspread wings.”


Tradução: “Eu podia ver claramente, no ar, uma luz estranha e pude distinguir nitidamente três formas, sendo que a do centro parecia ter algo como asas abertas.”
Fonte: drdavidclarke.co.uk

2. Soldado entrevistado por um vigário em Keswick –

“Quite plainly in mid-air a strange light … three shapes, one in the center having what looked like outspread wings. … I have a record of fifteen years’ good service, and I should be very sorry to make fool of myself by telling a story merely to please anyone.”


Tradução: “Muito claramente, no ar, uma luz estranha… três formas, sendo que a do centro parecia ter algo como asas abertas… Tenho um histórico de quinze anos de bons serviços, e ficaria muito triste em me fazer de tolo contando uma história apenas para agradar alguém.”
Fonte: warfarehistorynetwork.com

3. Testemunho de um soldado a uma enfermeira de hospital –

“I do now, but I used not to, but ever since the Battle of Mons my opinions have changed. … encircling the top of the pit was a ring of shining Angels. … Seven soldiers including an officer saw the Angels.”


Tradução: “Agora eu acredito, mas antes não acreditava; porém, desde a Batalha de Mons, minhas opiniões mudaram… Cercando o topo da trincheira havia um anel de anjos brilhantes… Sete soldados, incluindo um oficial, viram os anjos.”
Fonte: hauntedohiobooks.com

4. Relato de um tenente-coronel ao London Evening News –

“… there were squadrons of ghostly cavalry who were riding alongside him and his men. Three of his fellow officers and many of the soldiers under his command saw them too …”


Tradução: “… havia esquadrões de cavalaria fantasmagórica que cavalgavam ao lado dele e de seus homens. Três de seus companheiros oficiais e muitos dos soldados sob seu comando também os viram…”
Fonte: jaquo.com

5. Testemunho sobre a autoria da salvação –

“We had no doubt who authored our salvation: ‘It was God did it,’ they said.”


Tradução: “Não tínhamos dúvidas sobre quem foi o autor de nossa salvação: ‘Foi Deus quem fez isso’, eles disseram.”
Fonte: warfarehistorynetwork.com

Contexto Bíblico e Comparações

O fenômeno dos “Anjos de Mons” remete a eventos narrados nas Escrituras, onde seres celestiais aparecem para proteger e livrar o povo de Deus em momentos críticos. Assim como em 2 Reis 6:17, quando Eliseu ora para que seu servo veja o exército celestial, ou em Salmos 91:11, onde está escrito: “Porque aos seus anjos dará ordem a teu respeito, para te guardarem em todos os teus caminhos”, os soldados de Mons interpretaram a experiência como intervenção divina.

Além disso, há paralelos com passagens como a de Êxodo 14, onde Deus protege Israel do exército egípcio, e com relatos históricos de batalhas em que forças misteriosas mudaram o rumo dos acontecimentos.

A partir desses relatos, duas correntes principais de interpretação surgiram:

  1. Visão sobrenatural literal – O aparecimento de anjos ou cavaleiros celestiais como intervenção direta de Deus.

  2. Explicações naturais ou psicológicas – Fenômenos de exaustão, estresse de combate ou influência de boatos que circularam entre as tropas.

Independentemente da explicação, os “Anjos de Mons” permanecem como um dos casos mais documentados de alegada intervenção sobrenatural em um campo de batalha moderno.

[caption id="attachment_2810" align="aligncenter" width="227"] Crowhurst, R.; The Angel of Mons, c.1914; National Army Museum;[/caption]   [caption id="attachment_2811" align="aligncenter" width="300"] Batalha de Mons[/caption]

Notas de Rodapé

  1. Crowley, Aleister. The Amalantrah Working, 1918; retrato de Lam publicado como frontispício em The Voice of the Silence, The Equinox Vol. III, No. 1 (1919)¹²

  2. Gênesis 18:1–2, Bíblia Hebraica Stuttgartensia (BHS)²¹

  3. Gênesis 32:24–30; Oséias 12:4 (BHS)³

  4. Tobias 5:4, Septuaginta de Rahlfs-Hanhart⁴

  5. Êxodo 14:19, Mechon-Mamre (Hebraico/Português)⁵

  6. Arthur Machen, The Bowmen, Evening News (29 set. 1914)⁷

  7. Society for Psychical Research (SPR), conclusão negativa sobre testemunhos de Mons; estudo histórico e propagandístico do mito de Mons⁶⁻⁷

 

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Comentários (1)

Nicole Jackson
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