› Blog PFC › Isaac Newton, o “Mago da Razão”: Leitura da FAPESP (2000)

Isaac Newton, o “Mago da Razão”: Leitura da FAPESP (2000)

Blog PFC Por Vitor Pimenta
Isaac Newton, o “Mago da Razão”: Leitura da FAPESP (2000)

Isaac Newton, o “Mago da Razão”: Leitura da FAPESP (2000)

 

Introdução

Em dezembro de 2000, a Revista Pesquisa FAPESP trouxe ao público brasileiro uma face pouco conhecida — e frequentemente evitada — de Isaac Newton: o estudioso incansável de alquimia, profecias bíblicas e textos místicos. A matéria, inspirada na biografia Isaac Newton: The Last Sorcerer, de Michael White, questionava a imagem tradicional do físico como símbolo absoluto da racionalidade científica moderna. Em seu lugar, apresentava um Newton complexo, situado em um período histórico em que as fronteiras entre ciência, filosofia natural, religião e magia eram muito mais permeáveis do que se costuma imaginar.

Este artigo retoma e analisa criticamente essa abordagem publicada pela FAPESP, discutindo seus argumentos centrais, sua relevância historiográfica e como tais informações contribuem para uma compreensão mais ampla do pensamento newtoniano.

Newton e a herança alquímica: o argumento central

A reportagem destacava que Newton escreveu mais sobre religião, simbolismo e alquimia do que sobre física ou matemática. Estimativas citadas indicam que, das mais de quatro milhões de palavras deixadas pelo cientista, cerca de três milhões estão dedicadas a temas teológicos e alquímicos — número que surpreende quem conhece apenas o autor do Principia ou dos Mathematical Principles of Natural Philosophy.

Segundo Michael White, cuja obra fundamenta a matéria da FAPESP, Newton não se interessava pela alquimia de forma superficial. Pelo contrário, ele estudou intensamente tratados sobre transmutações, afinidades químicas, composição da matéria e propriedades ocultas dos corpos. Para White, esse conjunto de investigações — longe de ser uma excentricidade — teria influenciado a forma como Newton concebeu questões como gravitação e ação à distância.

O texto da FAPESP reforça que muitos biógrafos clássicos atenuaram ou “censuraram” esses aspectos, preocupados em preservar uma imagem puramente racionalista e iluminista de Newton. A biografia de White, e a reportagem que a apresenta, tenta corrigir essa visão unilateral.

Manuscritos, experimentos e ocultismo: as evidências apresentadas

A matéria dá destaque ao vasto conjunto de manuscritos newtonianos recuperados ao longo do século XX. Entre eles, há registros de experimentos, listas de substâncias, diagramas e reflexões místicas que revelam um estudioso meticuloso, empenhado em decifrar segredos da natureza que iam além do alcance dos instrumentos da época.

Um episódio marcante relatado pela revista é o interesse de John Maynard Keynes, economista britânico, que adquiriu parte dos manuscritos de Newton e, ao analisá-los, afirmou: “Newton não foi o primeiro dos homens da Idade da Razão; ele foi o último dos magos.” Essa frase tornou-se síntese de uma interpretação que recoloca Newton em sua verdadeira moldura histórica.

Outro ponto trazido pela FAPESP é a reinterpretação da famosa “maçã” que teria inspirado a formulação da lei da gravitação. Para Michael White, essa anedota funcionou como construção narrativa para esconder o caráter mais complexo — e, na época, potencialmente malvisto — de suas fontes de inspiração, que incluíam a busca alquímica por forças invisíveis e princípios ocultos da matéria.

Ciência, religião e misticismo: um Newton multifacetado

A matéria da FAPESP enfatiza que o interesse de Newton por alquimia não deve ser visto como contradição ou fraqueza intelectual. Ao contrário, ele era produto de seu tempo. Nos séculos XVII e XVIII, a alquimia fazia parte da investigação filosófica natural que mais tarde daria origem à química moderna.

Além disso, Newton dedicou-se intensamente ao estudo profético das Escrituras, às interpretações sobre o Apocalipse e a cálculos cronológicos sobre a história sagrada. Tal dedicação não era marginal em sua vida: para ele, compreender a natureza e compreender a mente divina eram esforços complementares.

A imagem emergente é a de um Newton integral, cujas pesquisas científicas e teológicas não estavam separadas por barreiras conceituais rígidas, mas conectadas por uma mesma busca pela verdade.

Discussão historiográfica: limites e potencial da abordagem

A proposta de Michael White — e, por extensão, da matéria da FAPESP — trouxe impacto especialmente por popularizar para o público geral uma faceta já conhecida entre historiadores da ciência desde meados do século XX. No entanto, a interpretação do peso da alquimia na formulação científica de Newton ainda é objeto de debate acadêmico.

Estudiosos reconhecem que as investigações alquímicas influenciaram o vocabulário, pressupostos e expectativas teóricas do cientista. Porém, há divergências quanto ao grau dessa influência nas formulações mais rigorosas do Principia. A matéria da FAPESP, ao narrar essa história ao grande público, cumpre um papel importante: mostrar que a ciência não nasce pronta, nem é construída apenas por racionalidade pura, mas surge em meio a tradições intelectuais diversas e às vezes conflitantes.

Conclusão

A reportagem publicada pela FAPESP em 2000 ofereceu uma contribuição significativa ao cenário brasileiro ao divulgar uma visão mais completa e humanizada de Isaac Newton. Longe da caricatura do cientista puramente racional, ela apresenta um Newton envolvido com alquimia, religião e misticismo, coerente com o espírito de sua época e fundamental para entender as bases de seu pensamento.

Matéria analisada: https://revistapesquisa.fapesp.br/newton-o-mago-da-razao/

Compartilhar: WhatsApp Facebook X (Twitter)

Comentários (2)

Vitor Pimenta
Eu que agradeço minha amiga.
Marcos Faria
Muito obrigado pelo seu trabalho e dedicação em abrir a mente das pessoas!!

Deixe seu comentário